Nesta área, do outro lado do aramado, um varal formado por fios que se entrelaçam, presos entre uma parede branca à esquerda e o aramado à direita. Nos fios, pendurados com pregadores, vinte tecidos quadrados brancos formam um varal expositivo. Em cada tecido, uma mulher homenageada como “Mulher Guerreira”: na lateral esquerda, em letras escuras, o nome da homenageada, acompanhado de um bloco de texto com sua trajetória, e, do lado direito, uma foto dela, colorida.
No início da área, em um tecido pendurado à esquerda, texto de
Rita Santos:
Mulheres Guerreiras
A primeira edição da exposição Mulheres Guerreiras aconteceu em 2011, quando foram premiadas 12 Mulheres Guerreiras e de lá para cá o MUF não parou mais. A versão de 2025 reuniu mulheres de várias edições, incorporando as memórias destas moradoras à exposição de longa duração do Museu de Favela.
O objetivo do Projeto é identificar nos territórios de Cantagalo, Pavão e Pavãozinho moradoras com uma trajetória de vida marcada pelo sacrifício de criar seus filhos num local tão cheio de complexidade e de como driblavam os obstáculos. Da luta individual e coletiva, das memórias que não podem ser esquecidas, enfim, dar visibilidade à história de pessoas reais, que representam grande parte da nação brasileira.
Uma homenagem mais do que justa a estas mulheres de fibra que se superam a cada dia para dar o melhor de si em prol dos filhos, da família e demonstração de orgulho pelo território onde vivem.
Quanta luta! Quanta coisa vocês viveram! Quanta história para contar! Quantos exemplos a repassar! Quantas dores vocês tiveram que suportar! Quantas dificuldades tiveram que enfrentar! Quantos sonhos tiveram que adiar! Quantos planos tiveram que adiar!
É não é mole não!
Mas vocês estão aí, cheias de vida e de amor pra dar! Não economizam quando se trata de distribuir solidariedade, compreensão, atenção a quem necessita de vocês!
Pessoas como vocês têm sim que se candidatar à premiação, porque vocês se encaixam perfeitamente na categoria de forte, de lutadora, de absoluta, de MULHER GUERREIRA com certeza!
O Museu de Favela vai te homenagear e sua família estará aqui para te abraçar e se orgulhar ainda mais de você!
Por Rita Santos
Esse texto ocupa todo o lado esquerdo do tecido. Do lado direito, arte em grafitti mostra, em tons de cinza, uma mulher negra, jovem, vista da cintura para cima. Usa turbante, brincos de argola e camiseta regata curta com a estampa de um diamante. Tem o braço tatuado.
Atrás dela, sobreposição de elementos coloridos e em tons de cinza. Entre eles: folhas de diferentes plantas; a cabeça de um leão com a boca aberta; cinco torres lado a lado; a cabeça de um elefante. Ao fundo, dezenas de casas coloridas em um morro; no topo, um sol amarelo sorridente em meio a nuvens azuis.
Na parte inferior da ilustração, uma faixa de cor clara com a inscrição “Mulheres Guerreiras” em letras escuras. A seguir, confira um resumo sobre as 20 mulheres homenageadas em cada tecido. Em ordem alfabética:
▪ Alzira de Souza Neves, 68 anos, casada, 3 filhos. Mora na comunidade do Cantagalo há 42 anos. Desenvolve trabalho voluntário pela Capela Nossa Senhora de Fátima, ao lado de casa.
▪ Cássia Oliveira, 57 anos, 4 filhos, sendo 2 adotivos, 1 neta. Nasceu em Petrópolis. Professora de música, coordena o Projeto Harmonicanto, sem espaço e sem patrocínio.
▪ Clarisse de Jesus Silva, comerciante. Chegou à comunidade do Pavãozinho com o marido em busca de melhores condições de vida. Com dois filhos, conclui o ensino médio.
▪ Diva José Vieira, 48 anos, 2 filhos, nascida e criada no Cantagalo. Tranceira afro, começou a trabalhar muito cedo. Exercita sua fé trabalhando como voluntária nos serviços religiosos da capela na comunidade.
▪ Erika Cristina Ribeiro Alves. Doméstica, veio parar no Pavãozinho depois que fugiu de casa aos 8 anos por conta dos maus-tratos que sofria da madrasta. Depois de 20 anos conheceu seu esposo, tiveram 2 filhos e completaram 21 anos de casados.
▪ Helena Rodrigues Benedito. Filha de colono, homem de confiança de um fazendeiro, veio para o Rio de Janeiro aos 11 anos trabalhar na casa de parentes do fazendeiro, que não lhe davam liberdade. Veio morar no Cantagalo com a filha, o genro e o neto, há 10 anos.
▪ Leda Maria Pereira de Macedo. Filha de um confeiteiro aposentado e uma costureira que não tiveram oportunidade de estudar, investe nos estudos para ter um bom emprego e fazer pelos pais tudo o que eles fazem por ela.
▪ Liberacy Maria de Oliveira, 52 anos, nascida e criada no Cantagalo. Solteira, passou por momentos difíceis e mudou sua forma de ver o mundo, o que transmite aos cinco filhos, que convivem na mesma casa.
▪ Lúcia Maria de Souza, 66 anos. Duas filhas, viúva, nascida e criada no Cantagalo. Auxiliar de enfermagem, trabalhou durante 32 anos no setor de pediatria, na linha de frente da emergência pediátrica.
▪ Márcia Souza Alves. Cabeleireira, 60 anos, divorciada, 3 filhos, nascida e criada no Cantagalo. Vem de uma família de 15 irmãos, começou a trabalhar aos 12 anos em casa de família, para ajudar em casa.
▪ Maria Barbosa da Rosa, 77 anos, viúva, 3 filhos, 2 netos, capixaba. Filha de um pai cruel, viu no casamento uma possibilidade de se libertar. Se mudou para o Cantagalo em 1962. Costureira há 50 anos, construiu sua casa com dinheiro da costura. Teve que parar de costurar para cuidar do filho de 54 anos, que teve um AVC.
▪ Maria de Fátima da Costa. 64 anos, 3 filhos, casada, ambulante. Nascida no Morro da Babilônia, no Leme, recebeu o convite da irmã, há mais de 30 anos, para trabalhar com ela vendendo salgados na praia de Ipanema.
▪ Maria Helena da Costa Pinto. Conhecida como Baiana, tem 81 anos, 1 filho, é casada. Natural da Bahia, morou durante 50 anos no Cantagalo. Vende salgadinhos na Praia de Ipanema, no Point Gay da Rua Farme de Amoedo. Já foi matéria de revistas nacionais e internacionais.
▪ Maria Iraci Santiago. 63 anos, auxiliar geral aposentada, casada, 3 filhas. Natural da Paraíba e moradora do Pavãozinho há 40 anos. Não teve ajuda para criar os filhos. Moradora do 5º nível do morro, sobe as muitas escadas íngremes na encosta, 8 a 9 vezes por dia.
▪ Maria José Ladeira. 75 anos, viúva, cozinheira, tem 4 filhos e criou 22 filhos tirados das ruas, depois que as mães faleceram. Tem 40 anos de Brizolão. Faz bolos caseiros e pratos, dá aulas de culinária. Parte de sua clientela são turistas estrangeiros.
▪ Maria José Pereira. 59 anos, casada, costureira. Nascida em Catunda, Ceará, é vinda de uma família humilde de 10 irmãos. Aprendeu cedo a fazer de tudo. Foi uma das primeiras manicures do Pavão, depois passou a se dedicar só a costura. Além disso, faz serviços de faz-tudo.
▪ Rosalina Ferreira da Silva. 86 anos, 3 filhos (um falecido), casada. Veio de Minas Gerais, chegou jovem ao Cantagalo. Era a principal bailarina na Estudantina na Praça Tiradentes. Após uma enxurrada, perdeu a casa onde morava. Ganhou um barraco de um engenheiro do Cantagalo, onde vive até hoje.
▪ Sônia Maria Alves de Oliveira. 78 anos, ascensorista aposentada, viúva, 3 filhos, nascida e criada no Cantagalo. Desfila desde o ano de 1960, quando tinha 16 anos, e é considerada a primeira-dama do samba. Foi presidente da ala da Velha Guarda da escola de Samba Alegria da Zona Sul, mesmo tendo 2 empregos.
▪ Sonia Modesto da Silva. 77 anos, 4 filhos, viúva, costureira, nascida e criada no Cantagalo, desfila desde os anos 80 na ala das Baianas da escola de samba Alegria da Zona Sul. Teve 12 irmãos – 11 falecidos em uma epidemia de sarampo. Quando os filhos cresceram, começou a trabalhar fora e ter liberdade para desfilar no carnaval.
▪ Zenita Costa. Viúva, tem 77 anos, 3 filhos e 6 netos. Criada pela madrinha, aos 5 anos varria, cozinhava e entregava comida na fazenda do pai. Doméstica e vendedora de bolos, trabalhou por 4 anos na casa do cantor Cauby Peixoto, mas precisou sair, contra a vontade dele, por não ter quem cuidasse do filho.
