Este totem vertical, de fundo preto e letras brancas, apresenta no
topo, à direita, em letras grandes e maiúsculas: “Azelina Viana dos
Santos”.
Abaixo, em um nicho iluminado internamente, foto-montagem. Na
parte superior, duas fotografias antigas mostram os rostos, banhados
de sol, de uma criança negra sorridente, e de Azelina, uma senhora
negra, com o nariz largo. Usa um lenço claro na cabeça.
Na parte inferior, a foto ampliada, com sinais de desbotamento: em
um terraço, sob céu azul, a criança e Azelina abraçadas. A criança usa
camiseta amarela e short branco. Azelina usa camiseta branca com a
imagem de Nossa Senhora e saia preta com estampas brancas. Ao
fundo, uma favela, um edifício arranha-céu e faixa de areia junto a
extensa área de mar.
À esquerda, preenchendo toda a lateral, texto:
“75 anos – Viúva – 1 filha – Natural de Santa Maria Madalena, RJ – Moradora do Pavão desde 1949.
Dona Azelina (da Penedo), como é conhecida, criou além de sua filha mais 3 sobrinhos:
2 filhos de uma irmã e 1 filho de um irmão, que sumiu de casa deixando o filho órfão com 11 meses.
D. Azelina saiu com sua família de sua cidade, Santa Maria Madalena, aos 11 anos de idade,
vindo de “Maria Fumaça” até a capital. Foram para o Alto da Boa Vista, onde o pai foi trabalhar
como caseiro. Depois para a Barra da Tijuca, onde ele foi trabalhar em uma pedreira (Cia
Pederneira), que lhe causou problemas psíquicos levando-o à morte. De lá para Bangu e Padre
Miguel, onde permaneceram até sua mãe ficar doente. Foi então que sua tia, moradora do
Pavãozinho, soube da doença da irmã e mandou buscá-los. Moraram um tempo com ela até
saberem de um senhor que estava vendendo um barraquinho no Pavão. A família comprou o
barraco à prestação e ela vive no mesmo local até hoje. Plantou em volta dele um pomar com pé
de manga, abacate, tangerina, pitanga, fruta-do-conde, amora, café, algodão, além de remédios
caseiros. Não se arrepende de ter vindo para o Pavão, foi bem chegada e não tem nada a
recriminar.
“Se eu tivesse que sair daqui para ir para outro lugar eu gostaria de voltar para a
minha terra, pois lá é muito bom e eu gosto, mas há muitos anos que eu não vou lá.”
O barraco era de palafita, feito de caixote, coberto com folhas de latas, com apenas um cômodo e
encostado em uma árvore. A família com 7 pessoas foi morar nele e mais tarde a irmã mais velha
ficou viúva na roça e também veio morar com eles trazendo seus 2 filhos. D. Azelina, sua mãe, 2
irmãs e os 2 sobrinhos dormiam em uma cama de casal. Os irmãos dormiam no chão com os pés
embaixo da cama. A família veio para a capital porque na roça os pais, como lavradores, tinham
de tudo, mas precisavam de dinheiro para resolver outros problemas, então o sonho do pai era
poder vir para o Rio trabalhar para poder dar uma vida melhor para os filhos. Sua vida na roça era
muito dura, pois os pais tinham que trabalhar na lavoura. Saíam às 5h30min e ela ficava
responsável pelos irmãos mais novos e pela comida, que tinha que mandar para a lavoura. As
panelas eram grandes e o fogão era alto, então ela tinha que subir no pilão para dar a altura, pois
era uma criança. Tem cicatriz de queimadura no braço até hoje. Como a cidade de Madalena é
muito fria, à noite o pai fazia um fogão de lenha para se aquecerem e poder dormir, mas de
manhã tinha que ir para o córrego gelado pegar água para abastecer a casa. Molhava-se no
córrego, depois ia para o fogão.
Aos 10 anos de idade adquiriu reumatismo, chegando a andar escorada em dois cabos de vassoura. “Quando caía um
eu caía também, que por sinal até hoje eu to quase que entrevada.” Quando chegou no morro quase não havia
barracos, nem caminhos, nem luz, nem esgoto, nem coisa alguma. Mas mesmo assim, foram muito bem chegados e
conviviam todos como uma única família. Se precisassem ir ao banheiro à noite, tinham que pular
sobre os outros no chão até chegar na porta e sair, pois o banheiro era do lado de fora. “Hoje na
minha casa, graças a Deus, tenho 3 banheiros: 2 dentro e 1 do lado de fora, mantido no mesmo
lugar que quando era o barraco de madeira.” Quanto aos “pombos sem asa” (fezes e urina
jogados em sacos), diz que sempre ouviu falar e que alguns… Eu ia levar criança e ia buscar também quando não
aparecia no colégio, eu ia em casa saber dos pais porque eles não apareciam na escola.”
Nas laterais do totem, em letras amarelas grandes e iluminadas internamente: “Museu de Favela”.
